CULTURA x LEAN


Cultura Lean - Way Lean Negócios, treinamentos em manufatura enxuta - Sergio Caracciolo

Certa vez, no meio da implementação de conceitos LEAN em uma operação nova, perguntei a um alemão do grupo o porquê do absurdo de tomar-se cerveja na Alemanha à 12 graus centígrados .

Sua resposta desencadeou uma grande reflexão na maneira de olharmos conceitos LEAN. Com um humor questionável, ele nos respondeu que a cerveja em nosso país era tão ruim que o fabricante houvera convencido a todos a toma-la o mais gelada possível para esconder seu horrível gosto.

O que isso tem a ver com implementação de conceitos LEAN em outros países não orientais ? Vários de seus princípios básicos não foram desenvolvidos ou descobertos no chão de fábrica de montadoras japonesas.

Na realidade esse comportamento vem de ancestrais que simplesmente adaptaram-nos às operações industriais. Falar à japoneses manter o foco no que fazem, respeitar ideias e eliminar desperdícios é ensinar o Padre Nosso ao vigário diria o dito popular. O mesmo se aplica ao trabalho em equipe e liderança.

Começamos a associar então o fracasso na tentativa de conceitos que jamais foram absorvidos no “gemba”. Começamos a ficar irritados com consultores e palestrantes que insistem em passar seu mundo de “Alice no país das Maravilhas” porque fizeram estágios no Japão e seus famosos blá, blá blás...

Começando então a se preocupar com o tema, procuramos uma definição boa de CULTURA e de todas, e/ou juntando algumas, concluímos que cultura é um conjunto de hábitos e maneiras de um povo e não cabe a ninguém julgá-los certos ou errados. Se você não concorda com a cultura de um determinado povo, simplesmente não conviva com eles, mas lembre-se que para ELES, eles estão certos !

Voltando ao ponto básico...o que tudo isso acrescenta na sua operação da fábrica ? Diríamos que mandatoriamente o seu ponto inicial deverá ser o de estudar profundamente a cultura local onde o processo será implementado. Não estamos falando necessariamente de países, mas às vezes de regiões, cidades ou até... bairros.

Outra noite em São Paulo, saímos para jantar e fomos em uma das mais famosas cantinas italianas do bexiga com suas massas e vinhos tradicionalíssimos. Quando os músicos chegaram, estávamos prontos para uma bela tarantela e canções napolitanas quando para nossa surpresa ouvimos os mais famosos sambas de Adoniram Barbosa com direito a trem das 11 cantado por todos......CLARO ! ! !

Estávamos no coração do bairro onde tudo isso foi criado e as letras destas músicas contemplavam todos os erros gramaticais e de fonética dos imigrantes italianos....o choque se transformou na percepção que estávamos no Bexiga e não em Nápoles.

Voltando para nosso ponto de partida, você nosso amigo consultor, e lideranças designadas para esta importante missão, comece seu trabalho não fazendo absolutamente nada...apenas observe muito. Converse com o chão de fábrica, almoce com eles, tome cerveja depois do expediente no boteco com eles, estude onde você está pisando. Para os que adoram os chavões americanos....”Grasp the situation” !

Não diga em momento algum que você fará milagres, não prometa nada, muito menos imponha militarmente que quem não seguir será eliminado. Isto....é muito sério.

Na hora de treinar o pessoal do chão de fábrica, não faça isso diretamente. Treine a liderança para que eles passem o treinamento. Voce logo estará longe...eles não. Eles devem ser o exemplo a ser seguido...não você.

Não faça nada sem explicar com muito detalhe o que será feito e o que TODOS irão ganhar. Numa destas recordações, estudamos uma célula de trabalho com 5 operadores e reduzimos para 4 com aumento de produtividade. Claro que o sindicato através de seus representantes locais, queriam nos trucidar. Com uma explicação muito transparente eles foram convencidos que os 4 estavam agora trabalhando menos do que os 5 antes. Como ?, simples apenas estudando cada movimento que adicionava valor versus a eliminação de desperdícios.

E o quinto membro, vamos eliminá-lo para alegria da diretoria ? Claro que não....vamos aproveitá-lo em algo mais nobre dentro de um novo cenário de produtividade mais alta. Surpreendentemente o sindicato passou a nos apoiar quando se deram conta que não se tratava de um golpe, mas sim a garantia definitiva do emprego de todos.

Durante todas estas implementações, você deverá buscar a maneira mais adequada de adaptar um conceito LEAN na cultura local. Certifique que a liderança irá apoiá-lo indo ao chão de fábrica, preferencialmente sem ostentar imagens opressoras, como gravata, celulares a cada 30 segundos e acompanhantes “to please the boss”.

Se eles não assumirem este compromisso com você, nem comece pois ao final do fracasso o comentários será: mais um consultor embrulhão. Outro cuidado que deve ser tomado é com a geração atual que está tão avançada nos recursos digitais que acaba se esquecendo da razão primária da operação.

Estivemos recentemente em uma apresentação do LEAN 4,0.....preocupados com a jornada nas estrelas e o foco desviado do grande artista e protagonista de tudo : O MEMBRO DE TIME!

Concluindo, leia e respeite todos os livros de LEAN, mas instale um filtro em seu cérebro e adapte-o ao local onde você atuará. Seu fracasso ou sucesso estará condicionado ao quanto você terá levado em consideração o local e as pessoa que ali trabalham.

Pense nisso e ....BOA SORTE !


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